Plano Estratégico – Pedro Bicudo

petição

IST, 16 de Setembro de 2022

Caro Prof. Rogério Colaço,
presidente do IST,
caro Prof. Luís Oliveira e Silva,
presidente da assembleia de escola do IST


Venho por este meio entregar a minha participação sobre o plano estratégico 2020-2030 para o IST, na sua versão de Julho de 2022.

Concordo com os objetivos de tornar o IST numa escola de engenharia líder a nível europeu.

No entanto discordo em absoluto com a estratégia deste plano para lá chegarmos. Entendo que é necessário tornar os nossos professores e investigadores os melhores da Europa. Para tal é necessário que todos os professores e investigadores ganhem responsabilidade e poder, que tenham voz direta em todas as decisões importantes do IST. Só assim poderão ser todos eles líderes e excelentes. Apenas assim será possível o que é referido na página 30: “4x faculty members with active projects” ou na página 36: “ attracting and retaining first class faculty”, ou nas páginas 39 a 42 “Research”.

Pelo contrário é de evitar arrebanhar os professores em pequenos contentores, onde a sua palavra se torna irrelevante. No plano estratégico é evidente a subalternização dos professores e investigadores.


1) Os professores e investigadores não foram consultados para a realização deste plano. Bastaria organizar “focus groups” para serem ouvidos.
2) A forma de participar que nos é dada é com um e-mail, sem comprovativo de entrega, nem garantia que possamos ter acesso a todas as participações.
3) Na pagina 23 e na página 55 é assumido que uma fundação pública com direitos privados é vantajosa relativamente a uma universidade pública, mas não é referido se os professores e investigadores ganharão ou perderão poder e responsabilidade. Na minha opinião perderão poder.
4) Na página 56 é referido que os estatutos serão revistos para “increase agility in decision making”, mas aparentemente na perspetiva apenas dos gestores do IST, pois tal é feito com “co-opted members”. A forma rápida e ágil com mais participação dos professores seria com rápidos referendos
5) O modelo de governância na página 60 passa por selected members que são detalhados na página 62, não havendo nenhuma referência ao papel dos professores e investigadores nessa seleção.
6) Na página 66, entre 9 “stakeholders” apenas um, “other faculty members and staff” corresponde aos professores e investigadores, o que mostra a sua irrelevância neste plano.

O IST está com graves problemas de financiamento e de governância. Mas penso que a solução para resolver estes problemas passa por “empower” os professores e investigadores e não por pela evolução para um sistema empresarial que subalternize a ”faculty”. A subalternização não cria líderes, cria escravos. Precisamos que cada professor seja um líder para melhorar o IST.
Por fim refiro a minha experiência pessoal, na minha vizinhança dentro do IST, para explicar a minha opinião. Peço desculpa por criticar atuais líderes, mas faço-o pois os líderes devem aceitar serem criticados, senão o sistema apodrece.


a) A minha área é a Área de Física de Partículas e Física Nuclear do Departamento de Física do IST. Esta área tem apenas um Prof. Catedrático por inteiro, o Prof. Mário Pimenta, e meia Prof. Catedrática, a Prof. Teresa Peña, que é partilhada com outra área. Ora tanto um como o outro têm pior CV do que qualquer um dos Profs. Associados da área. Isto vai contra o princípio da meritocracia defendido neste plano estratégico na página 37. Estes Profs. Catedráticos ganham mais do que os associados, ou seja o IST está a incentivar financeiramente quem tem pior CV.


b) E ainda, pelos estatutos do IST apenas estes Profs. Catedráticos podem liderar a sua área. Na prática, apenas eles podem propor os júris e editais. Conseguem encontrar forma de escolher quem é contratado equem é promovido. E realmente, desde que lideram a área, apenas são recrutados e promovidos professores do centro de investigação de ambos, o LIP, que é exterior ao IST. Não estão a contratar ou a promover líderes excelentes, apenas a dar emprego a pessoas do mesmo centro que trabalham exatamente no mesmo assunto. Estas pessoas não aumentam o número de cientistas no top 2% que é referido na página 8.


c) Ora isto acontece apesar de a Lei pretender que os júris sejam imparciais e meritocráticos. Isto só é
possível pois, de facto, a direção do IST, a direção do Concelho Científico e a direção do Departamento,
assim o permitem. Em particular, a lista que dirige o IST escolheu a Prof. Teresa Peña para presidente do Concelho Pedagógico. Isto mostra no meu entender que a direção do IST, na prática, se afasta da
estratégia de excelência.


d) O coordenador da área também aprova as respetivas disciplinas lecionadas. Ora na minha área há mais de dez disciplinas que funcionam com zero ou um alunos, que apenas têm aulas tutoriais e não efetivas, cuja informação no FENIX é muito escassa tanto em termos de conteúdos como de sumários ou de avaliação. Isto é possível apenas com o apoio do coordenador da área.


e) Várias decisões muito importantes para o IST foram tomadas com pouca participação dos professores,tais como a mudança radical do sistema letivo, de semestres para trimestres com uma compressão fortíssima da matéria, de avaliações com MAPs nas aulas teóricas, e da separação de MestradosIntegrados em 1os e 2os ciclos. Houve uma breve discussão no Conselho de Departamento, mas não houve nem um esclarecimento cabal dos professores, nem uma participação direta nas decisões tomadas.


Por isso considero que a simplificação proposta na página 54, a pretexto de agilizar a gestão do IST, irá
dar ainda mais poder a quem já tem grande parte do poder no IST. Não irá resolver os problemas do IST
pois irá reforçar o poder de quem já está acomodado na estrutura vertical de poderes do IST.
Acresce que os modelos empresariais funcionam nas empresas. Na prática, uma empresa tem
semelhanças com um exército ou uma ditadura. Os chefes mandam nos subalternos. Mas nas empresas há duas válvulas de escape muito importantes que nós não temos na universidade. A primeira é que uma empresa com maus chefes e más práticas acaba por falir. Assim sobrevivem apenas as boas empresas.


Mas o IST não pode falir. E ainda, se numa empresa temos um chefe de quem não gostamos, podemos
facilmente mudar para outra empresa, pois empresas há muitas. Mas nós não podemos facilmente mudar de trabalho dentro do mundo académico. Como tal temos todos nós, professores e investigadores, de nos esforçar para elevar o IST. Não pode ser uma tarefa apenas para o “PMO” da página 63.

Penso que devemos olhar para as mais importantes instituições a nível europeu, que são os países. Os
países mais ricos são também aqueles em que há mais participação pública, como os países escandinavos, ou a Suíça. Nesses países os referendos são frequentes. Também são os países em que a ciência e a tecnologia são mais fortes. Se contarmos o número de cientistas (124 no IST segundo a página 8) no top 2% per capita, vemos que nestes países são cerca de 200 a 300 por milhão de habitantes. Em Portugal temos apenas cerca de 40 por milhão, uma ordem de grandeza abaixo (e também uma riqueza muito inferior) o que coincide com sermos pouco participativos. Só conseguiremos chegar ao nível desses países dando mais participação, mais liderança, mais responsabilidade a cada um dos professores e investigadores do IST.


Com as melhores saudações académicas,

Pedro Bicudo
Professor Associado do Departamento de Física do IST
Responsável pelo grupo teórico do CeFEMA do IST

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